Tema: Contos

Pingavam botões das janelas
E os colibris cantavam desalmadamente
Observei em vislumbre aquele cenário
E regozijei pela vida

As cores das asas cresciam
Ofuscavam os vidros
E gritavam pela liberdade da existência
Chamavam por mim
Naquele entardecer duvidoso
E sem mais vi-os afastarem-se
Sem dizer adeus
Levaram as suas cores

Os botões caíam
E o som acordava tudo sem perdão
Derretiam-se e orvalhavam o chão
Morrendo sós



Cláudia Luz
(02-06-2010)
Tema: Contos

O retrato olhou para mim e sorriu
Pestanejei violentamente
Não estaria a ver bem, por certo
Um novo sorriso vingou
Mecanicamente devolvi a simpatia
Algo no ar contagiava-me
Em medida certa ao da figura exposta
Não sabia quem era
Quem fora
Importante seria, para ali estar em destaque
Pisquei-lhe o olho
A calma reinava na moldura
Pensei que tinha imaginado
Certamente que a figura me tinha marcado
Ambicionava o seu conhecimento
Beber as suas palavras
Continuei a sorrir-lhe por algum tempo
Satisfeita retive-o na memória
Aspirando que não se esfumasse aquele sorriso
Que um dia um quadro me deu

Cláudia Luz
(02-06-2010)
Tema: Contos

Poisou uma borboleta
Na palhinha do meu chá
Fiquei a adorá-la
Era uma mostra da vida esvoaçante
Batia as asas com tristeza

O ar que as suas asas lançavam
Enchia-me de esperança
De uma vida repleta
E sendo adorada partiu
Lançou-se na imensidão do dia
Quente e translúcido
De uma manhã

Cláudia Luz
(20-05-2010)
Tema: Contos

D. Celeste saiu da janela
Mas eu estou a ver quem passa
Quem vive uma vida diferente da minha
Que não fica sentada todo o dia
Que espera do nada
Quem busca sem encontrar
E reclama ao segundo
Quero vê-los e sonhar com vidas
Que não são a minha
Que são alguma coisa
Quero estar à janela
E ver a vida que passa na rua

Cláudia Luz
(17-05-2010)
Tema: Contos

Dançavam sempre ao pôr do sol
O som da luz envolvia-os
Rodopiar era algo natural
Esbanjavam-se as cores
Rodopiavam as penas
E todos invejavam a sua graciosidade
Era o espectáculo do dia
Todos o ansiavam
Reclamavam-no quando não havia
E assim a felicidade embriagava
Todos os que lá viviam

Cláudia Luz
(17-05-2010)
Tema: contos

Desci a rua
E vi que não era a mesma
Cantarolava-se em surdina
Engasguei-me com o espanto

Avancei e não vi ninguém
O meu olhar penetrou
Caiam palavras na calçada e eu tentei juntá-las
Não diziam nada

Levantei-me e fui descendo a rua
Os vizinhos estavam felizes
Davam vivas e abraçavam-se
Estavam doidos, pensei

No final de contas
Era a cadelinha da D. Vitória
Que tinha sido resgatada com vida
Da corrente do rio!

Cláudia Luz
(17-05-2010)
Tema: Vida

Amei a infância das gentes
Era quente e chorosa
Cabia na ponta da chuva
Arrepanhadas nos canteiros
Que virtualmente se sentiam na alma

Ridículo sentir dos vínculos
Que levam à complacência
Ao pudor da emulação
Que consola os gentios
No cio da estreiteza da raiva

Mordo o sentido pleno
Que negra altera os prados
Na circense falácia do calor
Abandonada à sorte
Bafejada na palidez febril
Que no alivio chega vã
Brotando a angustia do amar



Cláudia Luz
(02-06-2010)